sexta-feira, outubro 28, 2005

Despedida

A meia-luz tracejava o corpo dela atirado na cama. O sol invadia a janela, como um sopro de trompete anunciando a sexta-feira. Ainda ofegante da bebida, ela assobiava um sono vazio, tão nu quanto as suas próprias costas descobertas. O cabelo escuro e crespo, pouco antes erguido volumoso, contrastava com os travesseiros de fronhas brancas, lisas, tombados sob seu retrato pálido.

A primeira vez que saíram juntos pareceu-se exatamente igual à última, com a restrição de uma mudança patente: a cachaça. Foi tragada em propostas diferentes, do mesmo jeito opostas como os seus caminhos. Uma para deliciosa descoberta, outra para rasgada despedida. Foram duas noites curtas como os vestidos temperados que ela usava.

Ele referiu algumas palavras fracassadas ao ouvido surdo da moça. Os olhos verdes, acrescidos de um contorno permanente de nanquim, cerravam numa fuga ao encontro quase irrevogável: sonhava tonta. Enquanto ele, sentado ao pé da cama, respeitava a mudidão imposta. Uma decadência corajosa que dispensava um último beijo.

Por tratado do destino, deveriam partir naquele dia mesmo. Com uma pequena antecedência a separação se fez ali, entre as mariposas. Os recém apaixonados acabaram antes das despedidas. As promessas e os abraços lamentados estavam em algum lugar do quarto. Disfarçados de garrafas vazias ou de panos transados no chão. Não imaginavam um final melhor. Era perfeito assim mesmo. Como foi.

Sem dramas.

Despejo

Deixei uma folha quase vazia na minha escrivaninha.
Exibia um cabeçalho seco:
"Querida Alice".
Escrito de caneta preta. Ficou por dias à espera de um recado.
De um desabafo querido ou um desaforo.
Como uma bacia ao pé da cama de um doente.
Precavendo o vômito.

terça-feira, outubro 25, 2005

Rosas Amarelas

Tem rosa de tanta cor diferente
Que acabam fazendo do seu próprio nome
Uma contradição

As amarelas, por exemplo,
Se julgam culpadas pelo equívoco aparente
Queriam tanto mudar de feição
Que algumas morrem torradas
Atrás de uma cor rosada
No sol fervente do verão

Uma grosseria
Pra tão branda beleza
Essa alcunha que não condiz

Quando avisto algumas delas
Digo saudante
Depois de um beijo no nariz:
Que bonitas e cheirosas pétalas
Têm esses brotos
De Amarelas

quarta-feira, outubro 12, 2005

Do Avesso

Desde ontem
Não me reconheço mais
Nos meus versos

Eu soletro esquisito
E cada pedacinho
Tem jeito de texto antigo
Dos livros da minha vó

Mudei até a letra
E o jeito que eu seguro
A caneta

Comecei a escrever
Do avesso
Poemas inacabados
São como amores mal-resolvidos
Uma hora ou outra
Eles resolvem te acordar
No meio da madrugada
Atrás de satisfação

sexta-feira, outubro 07, 2005

Pantano

Passa a estrada estreitinha
Passa um fusca doutro lado
Passa o campo verde oliva
Passa o dia ensolarado
Passa todo trululum do ônibus
Passo eu cuidando você
Passa o mundo na tua poltrona
E tu finges que não vê