Sofia
Ao contrário das outras belas, Sofia tinha um encanto que era só dela. Alguma coisa que despertava em mim uma vontade imensa de escrever. Sua presença desencadeava numa avalanche poética. Era uma inspiração latente incontrolável. Só mais uma estrofe, eu pedia. Um vício. E com o copo cheio de uísque, voltava a me sentar no lado oposto do quarto, junto ao emaranhado de folhas rascunhadas. Enquanto ela me olhava doce, sem dizer nada. Não tenho explicação racional para a incoerente compulsória literária que me domava. Podia vir da romântica melancolia que agraciava cada frase e cada jeito da menina. Ou simplesmente do modo como ela erguia a sobrancelha quando me fitava. Não sei, eu estava menos preocupado em entender. Queria escrever. Nem que fosse apenas: Sofia, Sofia, nasceu pra rimar a minha poesia. E que eu repetisse isso a noite inteira, páginas e páginas de Sofia. Até a caneta cair.

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