quinta-feira, julho 28, 2005

Sofia

Ao contrário das outras belas, Sofia tinha um encanto que era só dela. Alguma coisa que despertava em mim uma vontade imensa de escrever. Sua presença desencadeava numa avalanche poética. Era uma inspiração latente incontrolável. Só mais uma estrofe, eu pedia. Um vício. E com o copo cheio de uísque, voltava a me sentar no lado oposto do quarto, junto ao emaranhado de folhas rascunhadas. Enquanto ela me olhava doce, sem dizer nada. Não tenho explicação racional para a incoerente compulsória literária que me domava. Podia vir da romântica melancolia que agraciava cada frase e cada jeito da menina. Ou simplesmente do modo como ela erguia a sobrancelha quando me fitava. Não sei, eu estava menos preocupado em entender. Queria escrever. Nem que fosse apenas: Sofia, Sofia, nasceu pra rimar a minha poesia. E que eu repetisse isso a noite inteira, páginas e páginas de Sofia. Até a caneta cair.

Ela Era Mágica

Ela era mágica. No topo do salto agulha erguia-se orgulhosa da sua própria volúpia. Não podia ser mais linda, nem mais metódica no caminhar. Traçou uma linha reta da porta até o fim do saguão. E ficou ali parada, feito uma leoa.

A maioria tola, nem percebeu a presença repentina da moça. Porém, por sorte ou atenção, os que já sabiam dela não desviavam o olhar: pelo deleite de ter sob a vigilha seu singelo balanço, pela curiosidade implícita na sua presença destoante, ou simplesmente pelo desejo de cair com os dentes no seu pescoço e arrancar-lhe a roupa.

Nas costas, um imenso decote servia de moldura para o cabelo liso que escorria parelho até a ponta. Mais longo que costumava-se usar e extremamente bem cuidado. Era negro, mas tingido de loiro, quase vulgar. O vestido lhe caia justo, beijando seu corpo até o meio da canela. Mesmo de preto, exuberava seios, pernas e bunda numa elegância contraditória.

A sua altura ficava evidente no comparar com as outras que teimavam em cruzar a cena em preto e branco. Eram tão nítidos os olhares platônicos, que as madames se enfureciam com seus maridos e gesticulavam sem vergonha. Era desejo e discórdia, pra lá e pra cá.

Seu olhar rondava tímido a baderna. Ficou ali por horas deslumbrando os contentes. Sozinha tentava desvendar a face do procurado. Do provável par atrasado que não vinha ou sequer existia. E não fitava ninguém olho-no-olho, já sabia da sua formosura: podia encontrar ali mesmo uma companhia ordinária. Mas era pouco para a princesa-menina, esperava paciente alguém que lhe enxergasse com a justa poesia. Só queria o que era dela, o que ela merecia.

segunda-feira, julho 11, 2005

À Bailarina

Ah, como é bela
A bailarina
Girando na sua cela
Pequenina

E o coração
Ela me furta
Dançando a solidão
Com saia curta

De coque violeta
Fazia acrobacia
E fazia pirueta
Mas só eu via!

E a sapatilha
Voava no seu pé
Enquanto a redondilha
Falava de ballet

Interminável carrossel
Na caixinha de menina

Eu amava!
Eu amava a bailarina

domingo, julho 03, 2005

Queria explodir
Mas a armadura era forte demais
Pra arrebentar
E mesmo que conseguisse
Seria amor e mágoa pra todo lado